Desde que surgiu, as pessoas olham abismadas para os valores apresentados no Impostômetro e logo não demoram a aparecer discussões sobre a altíssima carga tributária no Brasil e que mesmo cobrando tanto, o país não parece evoluir, oferecendo péssimos serviços a população. Para quem não sabe, o Impostômetro é uma ferramenta inaugurada em 2005 pelo
IBPT com o objetivo de contabilizar os tributos arrecadados no Brasil pela União, Estados e Municípios. Ele calcula os valores arrecadados pelos três Poderes do governo em tributos: impostos, taxas e contribuições. Para fazer o cálculo, eles utilizam dados fornecidos pela Receita Federal,
Secretaria do Tesouro Nacional, Caixa Econômica Federal, Tribunal de Contas da União, e o IBGE, além de consultar os Municípios que divulgam seus impostos coletados, CONFAZ e entre outros.
Todo ano é comum ouvirmos que o Impostômetro bateu mais um recorde e discussões sobre a alta arrecadação de impostos no Brasil. Nessa postagem não pretendo falar sobre a confiabilidade do Impostômetro (deixo isso para um próximo texto), mas sim sobre o sistema tributário no Brasil. Afinal, ele é justo ou não?
Para começar a falar sobre isso, precisamos explicar primeiro o que são os tributos. Eles são valores cobrados em moeda nacional de pessoas físicas (trabalhadores, consumidores) e jurídicas (empresas) e tem como objetivo custear os gastos do Estado em serviços necessários e fundamentais para a população, como os serviços de saúde e de educação e entre outros. Os tributos são divididos em três "categorias" diferentes, são eles as Taxas, as Contribuições de Melhorias e os Impostos.
As Taxas são cobradas quando o contribuinte necessita de algum serviço específico do ente tributante, com por exemplo ao fazermos um passaporte, um RG ou até mesmo a segunda via da carteira de habilitação. São cobrados taxas para tais serviços e os recursos arrecadados já possuem um destino certo para a aplicação do dinheiro.
As Contribuições de Melhorias (que na maioria das vezes nem chega a ser cobrado realmente) são tributos que o Estado cobra quando há alguma melhora no serviço ou em alguma área específica de determinada região, como por exemplo a pavimentação de uma rua.
Em relação ao Imposto, ele pode ser cobrado de duas formas, direta ou indiretamente. Aqueles que incidem na renda do cidadão são os chamados Impostos Diretos, já aqueles que incidem sobre o consumo, são os indiretos (ou invisíveis). Na teoria, todo o montante arrecadado deveria ser utilizado para o bem comum no investimento para uma educação de qualidade, um bom sistema de saúde ou a segurança.
Em relação ao Imposto Direto, aquele que aplica-se diretamente na renda do cidadão, podemos considerá-lo justo por causa do Princípio da Igualdade Tributária que afirma que todos são iguais perante a lei, mas deve-se dar tratamento igual aos contribuintes que se encontrem em situação idêntica, e desigual aos que estejam em situações diversas, na medida da sua desigualdade. Confuso? Nem tanto. A regra é bem simples e ela basicamente diz o seguinte, se sua renda é maior lhe será cobrado uma taxa maior de impostos, mas se sua renda é menor lhe será cobrado menos, podendo até ficar isento dos impostos dependendo do tamanho da renda. Dessa forma, diminuem-se as desigualdades sociais, pois os mais ricos e bem de vida contribuiriam mais para custear os serviços para a população em geral.
Mas e quanto aos chamados impostos indiretos? Eles são justos? Muitas pessoas argumentam que não, pois proporcionalmente os impostos sobre o consumo não levam em consideração a diferença de renda entre as pessoas. Por exemplo, quase a metade do valor de um carro (40%) e mais da metade de um videogame (72%), vai para o governo na forma de tributo e isso eleva o preço de ambos os produtos. Já 46% do preço de uma bola de futebol, de uma torradeira e de uma televisão, são cobrados pelo Estado. Além do mais, enquanto na maior parte do mundo existe apenas um único imposto que incide sobre o consumo, no Brasil são 6 e são eles: IPI, ICMS, ISS, Cide, IOF e o Cofins. O ICMS por exemplo, incide em cima do Cofins e do PIS, ou seja, basicamente você é obrigado a pagar o imposto do imposto sobre o imposto. Então podemos dizer que em comparação entre a elite e aqueles de baixa renda, um pobre paga mais do que os ricos só para colocarem gasolina (53%) em sua moto (65%), já que proporcionalmente ganham menos.
Aparentemente, parece injusto - e em parte não dá pra negar que não o seja, afinal, o pobre continua pagando mais do que o rico -, mas também devemos lembrar que o Imposto Indireto trabalha com o Princípio da Essencialidade, que garante que para assegurar a dignidade e a qualidade de vida do cidadão, a incidência tributária sobre produtos, mercadorias ou serviços serão definidos de acordo com sua essencialidade, de modo que quanto maior a importância social do bem consumido, menor será a carga tributária incidida sobre ele. Dessa forma tal princípio visa isentar ou privilegiar com alíquotas mais baixas os bens e serviços essenciais à população. Veja o exemplo do arroz, da farinha de trigo e da carne bovina que são cobrados apenas 17% de impostos, a batata é somente 11% e assim segue-se a lista, não somente com alimentos, e entre outros que são necessários.
Ao contrário do que diz a maior parte dos discursos, o
Brasil não é o pais com os Impostos mais altos do mundo e que os impostos cobrados - em parte - são justos, já que trabalham com Princípios que visam reduzir - ou minimizar - a carga tributária daqueles que possuem uma renda menor. Portanto, a questão em relação aos Impostos no Brasil, não é se eles são altos demais ou não, mas sim se eles são bem distribuídos com serviços de qualidade para toda a população. No PIB brasileiro, 35% corresponde aos tributos cobrados, mas infelizmente somente 12% desse valor é investido em serviços e obras do Estado, a maior parte desse valor vai para o pagamento de dívidas públicas beneficiando bancos e a elite econômica brasileira. Não é a toa que o Brasil é o 3º país mais desigual da América Latina, a má distribuição dos impostos somente aumentam a distância entre ricos e pobres e torna a pobreza ainda mais visível, com péssimos serviços sociais, de assistência ou até mesmo a educação. Além do mais, precisamos urgentemente de uma reforma que busque acabar com a bagunça tributária em nosso país, que consegue a proeza de cobrar o imposto do imposto sobre o imposto da taxa de renda do imposto.
Aliás, já que estamos falando de impostos vou deixar em aberto para uma próxima discussão, você já ouviu falar do Imposto Sobre Grandes Fortunas? Pois bem, é um imposto que existe na Constituição desde 1988, e ele pretende cobrar tributos extras daqueles que possuem muita quantidade de dinheiro, mas estranhamente, apesar de existir na Constituição (Artigo 153, Inc. VII) ele nunca foi regulamentado, portanto, só existe no papel, não sendo realmente cobrado. Por que? Vou deixar o debate aberto por enquanto.
Espero que tenham gostado. Obrigado!
Sobre o Autor:
 | Vinícius é o criador do Política Paralítica, que acabou se tornando Louca Consciência. Seus assuntos preferidos são: política, jogos e religião! Ele também gosta de falar muito sobre si mesmo na 3ª pessoa. Pois é!
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